Levar o meu filho ao futebol: um momento de prazer ou de perigo?

Levar o meu filho ao futebol ⚽️: um momento de prazer ou de perigo?

Meu filho, vem aqui. Não chores. Eu também queria levar-te ao futebol. Vou contar-te esta história, para que saibas o quanto. Vá, senta-te aqui e escuta. É uma história engraçada.

Quando ainda estavas na barriga da mamã, começaste a dar pontapés. E eu, que sempre adorei os jogos de bola, não tardei a dizer: “este, vai ser futebolista”.

Fiz muitos planos. Decidi que havia de fazer-te um cartão de sócio à nascença, que crescerias por entre a emoção dos campos de futebol. Imaginei levar-te às festas e fazer viagens para celebrar as vitórias debaixo do Marquês.

A tua mãe não ficava muito contente com a ideia porque, para ela, o futebol não era importante.

Mas eu, que sempre gostei destes universos desportivos, expliquei-lhe, sem constrangimentos, que um jogo de futebol não era apenas, como ela insistia em descrever “22 pessoas atrás de uma bola”.

Expliquei-lhe que um jogo de futebol ensinava muitas coisas. Para começar, disse-lhe eu, um jogo de futebol ensina a cumprir as regras.

Ali, no campo, cada cartão vermelho e cada cartão amarelo simbolizam, da vida, os momentos de penalização quando não se seguem as normas. E cada golo simboliza a concretização do esforço.

Ao olhar para aqueles jogadores, descobrimos que ninguém pode conquistar a vitória agindo sozinho. Que é na união, na partilha, na entreajuda que se constroem os momentos de glória.

Aprendemos a importância do outro e do respeito pelo outro. Aprendemos, no fundo, a ser gente.

Comprei-te as primeiras chuteiras para dares uns toques na bola. E fui contigo para descampados.

Sei que criei, em ti, esse gostinho pelo futebol, que hoje te fez chorar quando disse que não podia levar-te ao jogo, depois de te ter dito que te levaria. Mas, entende, meu filho, o futebol ao qual queria levar-te não é este que agora se faz.

Eu queria levar-te a um ambiente de festa, não a um ambiente de violência. Queria levar-te à emoção de cânticos a muitas vozes e não de insultos trocados de forma gratuita.

Queria saber que sairíamos do estádio – felizes com a vitória ou tristes com a derrota – mas a sentir que vivemos, juntos, um momento fabuloso, num ambiente onde, acima de tudo, o fair play e o respeito estiveram sempre presentes.

Hoje em dia, levar o filho ao futebol é perigoso. Levar-te ao futebol é perigoso. Mas entende, não é o futebol que está errado, são as pessoas que usam o desporto como desculpa para o fanatismo e que transformam um dos espaços de maior emoção num espaço onde não podemos ir sem medo.

Não penses, nem por um segundo, que não vamos a este jogo porque não te quero levar ao futebol. Nada há que mais queira do que estar lá, contigo ao meu lado, a cantar em nome da nossa equipa. A ver um bom jogo. A explicar-te as faltas e os fora de jogo.

A vibrar com os pontapés de canto e os penaltis. Nada há que mais queira do que saltar da cadeira, contigo às cavalitas, para gritar “golo!”.

Mas este tempo e estas pessoas que maculam o nome do desporto, são elas que não permitem que possa levar o meu filho ao futebol.

Então, olha, não chores! Vai buscar o cachecol! Eu vou buscar um sumo fresquinho para nós. E vamos sentar-nos aqui, ao pé da televisão, a ver o jogo.

Espero que seja um bom jogo! Vamos gritar pelos jogadores (mesmo que a tua mãe reclame), apoiá-los e ter respeito pela equipa rival. E vamos entoar, os dois, os cânticos, está bem?

No fim, se ganharmos, vamos celebrar! Mas aqui, está bem? Onde estás seguro e eu sei que podemos viver o futebol que eu sempre quis mostrar-te.

E ele saiu a correr, para ir buscar o cachecol. Sorria. Eu não. Não sorria porque não era aquele o plano que eu tinha feito para levar o meu filho ao futebol.

A minha mulher, que entrou nesse momento, perguntou-me: “não ias levá-lo ao estádio?”. E, encolhendo os ombros, eu disse-lhe “eu ia… mas tenho medo.”.

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