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Carta do bebé prematuro

bebé prematuro

Mamã,

Foi dentro de ti que me fiz gente. Não duvides. É mesmo verdade. De uma sementezinha quase invisível, eu fiz braços e pernas e troco e cabeça e órgãos. Cuidaste de ti, com um cuidado renovado e como nunca tinhas feito, para garantires isso mesmo. Que eu me desenvolvia, pedacinho a pedacinho, até ser como sou hoje.

Eu sei que cheguei um bocadinho cedo demais e que, separados por um vidro, me olhas com uma dose de amor e outra de medos. Pareço muito frágil. Principalmente aqui, dentro da incubadora. Sei que gostavas de poder agarrar-me mais perto e por mais tempo.

Os médicos dizem que estou a evoluir bem mas que poderei desenvolver-me um bocadinho mais devagar do que as outras crianças até completar dois anos. E também os ouvi dizer que poderei ter uma maior vulnerabilidade a doenças respiratórias. Mas não te preocupes. Tenho a certeza de que com todo o teu carinho e cuidado, sempre acompanhado pelo doutor, eu vou ser um homem tão grande e saudável como os outros. E sabes que mais, mamã?

És tu que me fazes acreditar nisso.

Claro! O papá é um homem forte. Mas, não sei, tu pareces mais forte. Talvez porque, lá está, me criaste desde que era uma sementinha e me fizeste gente. E eu vou ser forte como vocês. Vais ver! Um dia, vou andar aí em correrias. Tanto, que até vais zangar-te comigo, por um momento, antes de te lembrares deste dia e de como, hoje, te pareço frágil.

Não gosto de pensar em ti zangada comigo. Mas ainda gosto menos de pensar que estás zangada contigo mesma. Sim, eu ouvi quando perguntaste que erro fizeste para eu ter nascido tão cedo. “Terá sido culpa minha?”, questionas. Não penses nisso, mamã! Pensa assim: de sementinha e até ser gente, eu estive aí, dentro da tua barriga. Ouvi a tua voz a cantar para mim, esperei enquanto preparavas o enxoval do bebé, vi-te preparar o meu quartinho e fazer a mala de maternidade.

Estava à espera. E um bocadinho impaciente para te conhecer do lado de fora. Então, olha, vim mais cedo. Vai ficar tudo bem. Espero que, quando souberes que vai ficar tudo bem, deixes de ter medo e fiques apenas feliz. Gosto muito de te ouvir rir.

Agora, estou aqui. A crescer mais um bocadinho. E, vou contar-te um segredo. Eu, que queria tanto conhecer-te do lado de fora, agora já sei a verdade. Vou estar sempre do lado de dentro para ti, não vou, mamã? Acho que é a isso que os adultos chamam amor.

Com todo o carinho,
O teu bebé prematuro

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Escrito por Marina Ferraz

Marina Ferraz nasceu em Coimbra (Portugal) no ano 1989. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e Mestre na mesma área, pela Universidade de Coimbra.
Autora pela Sociedade Portuguesa de Autores desde 2008

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