Crianças mimadas: de quem é a culpa, afinal?

Crianças mimadas são um tema incontornável dos dias de hoje. A atribuição de culpas faz-se e não é consensual. Hoje, no Bebé a Bordo, trazemos uma perspetiva pessoal, de quem guarda histórias para contar sobre a falta de educação e o desrepeito, no meio escolar. 

Marina Ferraz, ex-professora de AEC’s de Inglês

A minha avó foi professora primária. Hoje, aos 88 anos, este é um tempo que recorda com saudade e entusiasmo. Conta histórias sobre os dias de aulas, sobre as alunas, sobre as flores que lhe levavam. E sobre os pais que, quase sempre, colocavam nas mãos dela a possibilidade de castigar os filhos, caso se portassem mal.

A minha avó recorda que, ao contrário do que era comum na época, nunca bateu em nenhuma aluna. Reprimendas, diz que deu algumas. Principalmente a uma aluna. Só a uma. Sobre essa, diz que era mal-educada e rude, mimada e desrespeitadora. 

Ora, a minha avó foi professora primária por longos anos. Eu, numa fase de desemprego e com as ferramentas certas para ocupar um lugar vago como professora de AEC’s de Inglês, fui-o por um ano letivo. 9 meses. 9 meses que me bastaram para saber que não voltaria nem se me ofertassem um salário milionário. Onde a minha avó guardou memórias boas e entusiastas, eu guardei a explicação concreta sobre as razões que levam tantos professores a ficar de baixa com um esgotamento. Onde a minha avó conta uma criança mimada, eu contei dezenas, com raras e notáveis exepções. 

As crianças mimadas e mal-educadas são o que de mais vulgarmente se encontra nas escolas primárias do país. Passei por três escolas durante os 9 meses de atividade. Conto pelos dedos de uma mão os alunos que não tive de repreender. E não precisaria de todos os dedos para dizer quantos mantiveram uma postura de respeito. 

Sim, eu sei: as vozes da resistência dirão sempre que a escola é para educar. Mas não. Os pais são para educar. A escola é para formar alunos que deveriam vir educados de casa. Não vindo, resta saber de quem é a culpa. E, embora a minha perspetiva – que não pode ser imparcial após esta experiência – possa estar errada, eu encontro três culpados basilares para as crianças mimadas e mal-educadas do nosso século. 

Crianças mimadas

1. Os pais e a dicotomia “ausência/permissividade”

É um facto bem conhecido. Os pais querem ter filhos mas não têm tempo para cuidar deles. O século XXI encheu-nos os dias de trabalho e tarefas e corridas entre trabalho e tarefas. Alguns pais só vêem os filhos à noite, de raspão ou não os vêem de todo. Enchem o tempo das crianças com atividades extra-curriculares ou entregam-nos aos cuidados dos avós, esses amigos de cabelos brancos que são bem conhecidos por dar à criança tudo o que ela quer

Quando param um pouco, estes pais oscilam entre dois estados. O de querer compensar a falta e a ausência, que resulta numa permissividade excessiva e sem regras, onde a criança tem tudo o que quer e não é obrigada a fazer nada que não lhe apeteça; e o da necessidade de tempo pessoal, que leva os pais a descartar a responsabilidade do cuidado da criança, pondo-lhe nas mãos um tablet, um smartphone ou um programa de televisão qualquer. 

Entre o cansaço dos dias e o sentimento de culpa, os pais criam crianças mimadas, que não sabem ouvir um “não”; acreditam ser o centro do universo; tratam mal as outras crianças ou os adultos em seu redor… tudo em prol do seu próprio conforto.

São crianças que não sabem comportar-se, que não sabem seguir modelos comportamentais, que não sabem respeitar o outro. São crianças a quem, claramente, os limites não foram ensinados.

São crianças mal preparadas para o futuro, que não entendem que todas as suas escolhas e todos os seus atos têm consequências. 

2. Os modelos escolares e o “antipedagógico”

A falta de consequências, no entanto, não é culpa exclusiva dos pais. A escola e as pessoas que têm vindo a regular a forma de funcionamento deste tipo de instituição têm culpa no cartório. 

No tempo da minha avó, bater e castigar os alunos era prática comum e, como bem se vê nas suas histórias e na sua escolha de não o fazer, tal nem sempre era necessário. Mas não estamos a falar apenas do tempo da minha avó.

A minha mãe disse-o à minha professora primária, à minha frente: “se algum dia precisar de lhe dar uma palmada, dê; que ao chegar a casa leva outra por ter sido mal-educada”. Nem a minha professora ma deu, nem a minha mãe! 


Hoje em dia, sabemos de antemão que “dar uma palmada” está fora de questão. Não importa se a criança foi mal-educada, desrespeitadora, nem se atacou algum adulto ou criança de forma gratuita: a consequência de uma palmada é caso certo para ter os pais da criança a defendê-la porque “coitadinha, não fez nada de mal”. E o mais comum é que seja o professor a ter as consequências duplas das más ações da criança. 

Pessoalmente, sou contra a ideia de bater nos alunos e sempre fui. Mas acho que um castigo no tempo certo, um teste surpresa porque a turma não tem respeito ou trabalhos de casa reforçados servem um propósito fundamental quando se trata de fazer a criança entender que uma má ação gera uma consequência. E foi isso mesmo que, num dos piores dias, tentei fazer.

Pela primeira (e única) vez durante os 9 meses como professora, os meus alunos tiveram trabalhos de cada da AEC de Inglês. Reclamaram as crianças, reclamaram os pais, reclamaram os responsáveis da escola: “é antipedagógico”. 

Ora, se é antipedagógico enviar trabalhos de casa sobre o vocabulário de inglês… o que é pedagógico? Como podemos ensinar às crianças a matéria que leccionamos? Como podemos fazê-las entender que a sua falta de educação tem consequências? 

3. A tecnologia e o papel da televisão

Provindo diretamente do meu primeiro ponto, é ainda necessário salientar o acesso das crianças aos ditos smartphones, tablets e programas de televisão que, tantas vezes, ajudam os pais a conquistar um merecido descanso de alguns minutos. 

Não sou contra a tecnologia nem o seu uso. Mas, quando falamos de crianças, este uso deveria, na minha opinião, ser extremamente regulado (o que, evidentemente, roubaria o dito descanso aos pais). 

Não eram incomuns conversas, entre as minhas alunas e os meus alunos, sobre a Casa dos Segredos; sobre o vídeo que viram na net onde se viam “as mamas da miúda”; sobre o filme com a bolinha no canto que deu no Sábado à noite. Nestes meandros, percebi que viam coisas que não entendiam, coisas que as influenciavam, coisas cuja linguagem duvidosa se reproduzia em contexto de sala de aula, sem qualquer preocupação. 

Levando, por uma ou duas vezes, músicas e vídeos para ensinar vocabulário, trataram-me como se fosse inadequado porque “eram vídeos para crianças”. E reviravam os olhos. 

As crianças mimadas estão a dar cabo dos professores. Mas há um cenário muito mais grave a acontecer: o mundo está a dar cabo das crianças. A criança mimada e mal-educada é uma criança que já não se vê criança, já não age como criança, já não se comporta como criança. 

Donas do seu nariz e do mundo, com um epicentro nos seus umbigos, linguagem roubada aos programas para maiores de 18, conceitos que banalizam a sexualidade e a violência; estas crianças não são apenas difíceis de cuidar por serem “crianças mimadas”. São difíceis de cuidar porque não são crianças. 

O mundo está a roubar a infância dos nossos filhos. Dá-me saudades do tempo em que a minha maior preocupação era brincar. Ainda alguém brinca? 

Se calhar não estamos a criar crianças mimadas e mal-educadas. Estamos a criar mimados e mal-educados que nunca foram crianças. Como serão, mais tarde, estes adultos? 

Também tem uma opinião sobre quem tem culpa da situação atual? Alguma vez viveu uma situação com uma criança mimada ou mal-educada? Partilhe a sua opinião com os restantes leitores do Bebé a Bordo.

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