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Conto infantil Bebé a Bordo: Quando eu for grande

Quando eu for grande

Francisco estava sentado na sua secretária, de olhos postos na janela. Do outro lado, via-se o dia cinzento e chovia. Suspirou. Como gostaria de, naquele momento, deixar os trabalhos de casa por fazer e sair. Correr atrás da bola, andar de baloiço, fazer alguma coisa divertida.

Chovia e a bola de futebol estava pousada no canto do quarto, parada e triste, como ele, por não poder rebolar sobre a relva fresca. Não havia nada para fazer! Afinal, ainda eram só cinco da tarde. Os bonecos animados já tinham dado e o pai estava a ver as notícias na televisão. E a mãe avisara: “nada de jogar consola até acabares os trabalhos de casa”.

Era por isso mesmo que Francisco estava sentado na secretária, a olhar pela janela, vendo as gotas de chuva pousar no vidro, em bolinhas arredondadas que, escorrendo, pareciam minhocas tontas até formar pequenas pocinhas no parapeito exterior.

Olhou para a folha de papel que tinha à sua frente e para a letra arranjadinha da professora, que sempre preparava o espaço dos trabalhos de casa no caderno dos alunos. Leu, sem pressa, a letrinha ordenada da professora Luísa. Dizia assim: “Por palavras tuas, diz o que queres ser quando fores grande”.

Francisco não gostava de escrever e nunca tinha pensado bem sobre o que queria ser quando fosse grande. Gostava de ser muitas coisas e imaginava que ser grande pudesse ser engraçado. Na verdade, ser grande era justamente o que ele queria.

Quando fosse grande poderia fazer como o irmão mais velho. Sair à noite, quando lhe apetecesse, namorar com meninas bonitas e jogar Playstation o dia todo! Ninguém lhe ia dizer que tinha de se deitar cedo. Ninguém lhe ia dizer que jogar consola fazia mal aos olhos. Ninguém ia rir-se quando dissesse que a Maria era bonita. Não! Quando fosse grande, havia de passar todo o tempo que quisesse a passear com a sua namorada e a jogar.

Não precisaria de cumprir o horário que a mãe e o pai lhe davam nem de estar durante horas a fazer os trabalhos de casa antes de ir brincar. Ia ser exatamente como o seu mano.

“Ou como a minha irmã”, pensou depois. A irmã tinha ido para a faculdade e morava sozinha. Contava-lhe, às vezes, que comia cereais de chocolate ao jantar! Ao jantar, imaginem lá! Cereais de chocolate! Havia de ser como a irmã. Ia comer chocolate a todas as refeições. Às vezes, até ia jantar gomas de ursinho! Quando fosse grande, ninguém iria dizer-lhe que tinha de comer as coisas de que não gostava ou de beber água em vez de refrigerantes. Ia ser exatamente como a sua mana.

“Ou como o papá”, acrescentou, em pensamento. O pai trabalhava fora e vestia-se sempre de uma maneira muito elegante. Com fato, gravata e tudo! Quando voltava, a mamã servia o jantar e, depois de a ajudar a levantar a mesa, ele ia ver televisão. Era sempre o pai que escolhia o canal que queria ver! Sempre! E, quando ele queria ver os bonecos animados, a mamã lembrava-o: “como o papá esteve a trabalhar, vamos deixá-lo ver o que ele quiser, está bem, Chico?”. E ele deixava. Mas não gostava muito, porque o pai só gostava de ver as notícias.

“Ou a mamã”, não podia esquecer a mãe. Sempre que dizia à mamã que não queria comer os legumes, que não queria fazer os trabalhos de casa ou que não lhe apetecia ir lavar os dentes, ela dizia a mesma coisa: “quem manda sou eu”. Ser grande também devia ser isso: mandar. E ele queria essa liberdade, de poder fazer o que quisesse e dizer que o fazia porque “mandava”. Quando fosse grande, ninguém havia de lhe dizer o que fazer. Ninguém ia poder dizer-lhe que não podia brincar na rua, ainda que estivesse a chover. Poderia deixar os trabalhos de casa por fazer e simplesmente brincar.

Sim! Ser grande devia ser espetacular! Era isso mesmo que ele queria ser. Grande. Para poder ser como os pais e como os irmãos. Para poder ter essa liberdade e viver da maneira que mais gostasse. Ia escrever isso mesmo. Mas, antes que a ponta da caneta tocasse o papel, parou por instantes e pousou o olhar nas gotas de chuva da janela.

E se… – pensou – ser grande não for assim tão divertido?
Afinal… – lembrou Francisco – O irmão chegava sempre quando a mamã já estava deitada. E ela nunca se levantava para lhe dar um beijinho de boa noite ou para lhe aconchegar os lençóis em redor do corpo. E mesmo o pai, se o estivesse, lançava-lhe apenas um cumprimento leve, sem aparecer à porta do quarto para entoar, de forma cantada, um último “boa noite, campeão”.

E a irmã tinha de preparar os seus próprios cereais e chegava sempre a casa com vontade de comer as comidas da mamã. Queixava-se, muitas vezes, de que a comida de casa lhe sabia melhor. E comia sempre com mais agrado os pratos da mãe, mesmo quando tinham legumes! Imaginou-se a ter de preparar a sua comida e de se sentar sozinho na mesa, a comer. E ficou triste. Triste pela irmã que, se calhar, nem queria cereais para o jantar.

Além disso, o pai chegava sempre muito, muito cansado do trabalho. E queixava-se muito da gravata. Tinha sempre os olhos um bocadinho tristes e quase nunca lhe sobrava tempo para ir para a rua, aproveitar os dias de sol e jogar à bola. Na verdade, o pai dizia-lhe muitas vezes: “quando era pequenino, queria ser jogador de futebol”. Mas não era: afinal, os jogadores de futebol não podem andar de fato e gravata a correr no campo, não é?! Além disso, o pai nunca parecia muito animado enquanto via televisão e, às vezes, até adormecia durante o telejornal.

Tal como o pai, a mãe também parecia cansada. E passava o dia a correr do trabalho para casa, sempre ocupada com tarefas. Ainda que mandasse, a mãe não parecia fazer muitas coisas de que gostava.

Agora que pensava sobre isso, parecia-lhe que os adultos não faziam muitas coisas das quais gostassem. Raramente os via brincar ou aproveitar o sol. Nunca tinham quem lhes preparasse as comidas favoritas nem quem os levasse aos parques infantis. Não pareciam conhecer o conforto de uma história antes de dormir ou dos lençóis entalados e aconchegados ao corpo. Pareciam sempre ocupados e preocupados com alguma coisa. Pareciam um bocadinho tristes.

Não, não queria ser grande como eles. Não queria deixar de ter o “boa noite” cantado do pai nem o aconchego do último conto antes de ir dormir. Não queria deixar de provar os bolos da mãe nem adormecer durante os bonecos animados, sem os ver. Queria a vida como ela era. Com as brincadeiras dos irmãos e os conselhos dos pais… e até os brócolos com peixe e cenoura que lhe faziam bem aos olhos.

Ficou a olhar para a janela durante um instante pensando: afinal, o que queria ser quando fosse grande? A chuva amenizou um bocadinho. De repente, uma pequena abertura entre as nuvens fez com que parasse. O sol raiou, iluminando o quintal e fazendo cintilar as gotinhas de água sobre os vidros.

Mordendo o canto do lábio, Francisco deixou que a caneta encontrasse o papel, enquanto sentia a emoção crescente da brincadeira que até então adiara. Escreveu a resposta numa corrida, sem se preocupar com a letra ou a linha que deveria seguir. Depois, levantou-se de um pulo, pegou na bola e saiu para brincar.

Com um sorriso comedido, a mãe ficou a vê-lo passar a correr. Tinha saudades do tempo em que também ela cumprimentava o sol no primeiro indício do seu raiar. Foi ao quarto da criança e aproximou-se da secretária, como sempre fazia. Sobre ela, o caderno continuava aberto. Uma letra muito elegante e perfeita tinha escrito: “Por palavras tuas, diz o que queres ser quando fores grande”. E, por debaixo desta, numa letrinha desalinhada e corrida, lia-se apenas uma frase: “Quando for grande, quero ser pequenino!”

Marina Ferraz

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Escrito por Marina Ferraz

Marina Ferraz nasceu em Coimbra (Portugal) no ano 1989. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e Mestre na mesma área, pela Universidade de Coimbra.
Autora pela Sociedade Portuguesa de Autores desde 2008

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