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A Maternidade num Mundo de Críticas

A Maternidade num Mundo de Críticas

A Maternidade num Mundo de Críticas

(ou a Máfia das [pequenas] opiniões)

M. De Mulher. De Mãe. De Máfia.

Não se fala disto. Suponho que seja pelo medo. Mas de quê? De quem? Surgem-me muitas dúvidas em torno desta questão. E recuso. Recuso-me. Não quero estar só na indignação!

A gravidez será um dos momentos mais bonitos da vida de uma mulher.

E a maternidade – para quem a quer e deseja – deveria ser um momento de intensa felicidade, orientado para a construção de um mundo melhor: aquele mundo que não sabemos se ainda vamos ver mas que queremos para os nossos filhos.

E, por ser intrínseco e único, este momento deveria ter uma sacralidade que vedasse, do exterior, todas as palavras de ataque, cujo teor se mostra apenas debilmente ancorado numa tentativa de construção.

Em adolescente, passeando com a minha sobrinha pela mão, eu ouvia, já, algumas destas palavras opinativas:

“Ainda é tão nova. A bebé será dela?”

Era! Era minha. Minha, numa medida que eu não devia ter de explicar. Mas explicava. Porque me fazia sentir mal. “Minha sobrinha”. E as pessoas anuíam. Aliviadas – sei lá eu porquê! – De eu não ser mãe.

Mas quando, pelos meus 20 anos, anunciei, numa conversa suave, que a maternidade não fazia parte dos meus planos, a crítica foi ainda maior. Chamaram-me egoísta, mimada… Disseram que eu ia mudar de ideias.

Que nunca ia ser completa. Que nunca ia ser mulher.

Longe de ser contra a maternidade, tentei explicar. Explicar como adoro crianças. Explicar como fico feliz pelas tentantes que se vêem nos braços com o esperado bebé. Explicar que, apesar disso, não sou mãe nem quero sê-lo.

Que é uma escolha. Um direito meu. E, perante as explicações, ecoou novamente: “egoísta”.

Deixei que o tempo levasse as palavras, que nunca pararam de correr. Mas, passado pouco tempo, uma amiga minha engravidou. Aos 23 anos. E disseram-lhe, embora eu soubesse a sua felicidade: “Oh, foi acidente?”;

“Tão novinha e já grávida”.

Ela, como eu antes dela, fez ouvidos moucos. Tornou-se mãe de primeira viagem. Daquelas que, no final do dia, mereciam uma medalha.

Ao verem o seu ar cansado, no entanto, as pessoas criticaram também isso. E criticaram o regresso dela a um trabalho por turnos. Ao trabalho que lhe sustenta a casa e o filho, zelando para que não haja dificuldade nem privação.

Logo por azar – ou provavelmente por sorte, sendo que tudo o que lhe vi nos olhos foi felicidade – ainda mal o menino tinha celebrado o primeiro ano de vida, e ela engravidou novamente.

Passeando com ela, de carrinho e barrigão, ouvi comentários, num tom suficientemente audível para que não lhe chamemos sussurro:

“Tão nova, já mãe e grávida outra vez.

Francamente. É por isto que o mundo está como está!”. E ela, que também ouviu, pousou os olhos no chão, continuando a andar. E não disse nada.

Era outro rapaz. Anunciou-o num Chá de Bebé. Em uníssono, ouviu-se um “parabéns” alegre. Em surdina, foram comentando com ela:

“Não sabias fazer uma menina?”; “Não querias antes um casalinho?” ou simplesmente “Que pena ser outro menino”.

E ela, que nunca disse palavra em resposta, ficava triste, à medida que lhe minavam os dias com as críticas escusadas.

Além disso, estando num comboio, recentemente, vi também criticarem uma mãe, claramente atrapalhada, a cuidar das gémeas, que deveriam ter, no máximo, 2 anos e cujos pulmões permitiam uma ininterrupta, interminável e impossível birra: “É da educação que lhes dá!”, dizia alguém, sem pudor de o fazer em voz alta.

E a resposta veio em igual tom: “Hoje em dia não impõem regras e dá nisto!”. E logo outra: “Com dois é difícil e, ainda para mais, deve ser mãe solteira”. Mas ninguém moveu um dedo para a ajudar.

Comecei a notar que os comentários são quase sempre de outras mulheres e que, na sua maioria, também são mães. E, com isto, comecei a perguntar-me se esta máfia das (pequenas) opiniões terá noção do dano que causam as suas palavras despropositadas.

Não sou mãe. Não quero ser mãe. Mas percebo isto: M, de Mãe. M, de Máfia. E M que poderia ser de “Meu”.

Esse possessivo eterno que se aplica ao direito à escolha: o Meu direito, a Minha vida, o Meu corpo, o Meu filho. E também M de Mundo. Do Mundo para o qual o filho se cria. Do Mundo que para ele se deseja.

De um Mundo que, sem as (pequenas) opiniões da máfia, essas opiniões que nunca foram pedidas e estão longe de ser desejadas, daria mais espaço para que as mamãs e futuras mamãs (e até as mulheres que não querem sê-lo) possam viver as suas vidas em paz, sem terem de pousar os olhos no chão, como se a felicidade fosse um crime.

M. De Mulher. De Mãe. De Mundo. Por um mundo onde a Maternidade não aconteça num mundo feito de críticas.

Marina Ferraz

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Escrito por Marina Ferraz

Marina Ferraz nasceu em Coimbra (Portugal) no ano 1989. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e Mestre na mesma área, pela Universidade de Coimbra.
Autora pela Sociedade Portuguesa de Autores desde 2008

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