Gravidez indesejada: o tema do qual ninguém quer falar

São sete pedras na mão que espero enquanto escrevo estas palavras. Porque as escrevo? Porque não acho… não acredito… que esteja só. Mesmo que mais ninguém o diga, por medo de confrontos e represálias. Mesmo que mais ninguém o assuma, por medo de o admitir para si mesmo. Não acredito que esteja sozinha neste sentido, meio vazio, de uma gravidez indesejada. 

É isso mesmo: eu estou grávida e não quero ser mãe. Eu estou grávida e não quero este filho. Eu estou grávida e não me sinto feliz. 

Como é expectável num tempo onde se vive a maternidade num mundo de críticas, a mera sugestão subentendida nas entrelinhas já fez com que me dissessem muitas coisas. Com que me acusassem de egoísmo (“mas tens de pensar no bebé, não sejas egoísta”) ou de irresponsabilidade (“se não querias, tivesses usado proteção”), ou mesmo de imaturidade (“se não querias, a coisa madura a fazer era teres abortado, agora escusas de estar assim”). É incrível como pessoas que não nos conhecem e não sabem a nossa história conseguem guardar opiniões tão fortes e estruturadas sobre a nossa vida e as nossas escolhas. 

Eu não escolhi engravidar. O pai do meu filho não é meu marido nem meu namorado. Foi um relacionamento algo casual, que durou alguns meses, sempre com a noção plena de que, eventualmente, terminaria. Vivemos momentos intensos, como muitos casais que não são, na verdade, um casal.

E protegemo-nos sempre, não só porque nenhum dos dois queria construir família, mas também porque éramos ambos informados, instruídos e sabíamos os riscos das relações sexuais desprotegidas. 

Eu ainda estou na faculdade, a terminar o primeiro ano do mestrado. Ele acabou a licenciatura há pouco tempo e ainda não tem emprego. A gravidez resultou verdadeiramente daquilo a que podemos chamar de acidente. E, que me perdoem as luminosas gestantes que amam sê-lo, mas não foi um acidente feliz nem, como já me sugeriram “o melhor acidente da minha vida”. 

Quando descobri que estava grávida, senti tudo o que uma mulher não deve sentir: vontade compulsiva de chorar, azia, um peso no peito que me angustiava. Contei-lhe e ele reagiu de forma fechada, quase agressiva, reforçando o meu sentimento, já negativo, com mais algumas nuances de desespero. Disse-me que abortasse. E eu concordei. Nenhum dos dois queria este bebé. 

É fácil falar. Muito mais fácil do que agir. Marquei a clínica e nunca passei da porta da entrada. Não consegui. Era o meu corpo e a minha decisão. Ele descartou logo toda a responsabilidade, dizendo que “se não abortasse, estava sozinha nisto”. Nem ele sabia a verdade das palavras que me dizia. 

Eu não estou sozinha nisto por estar solteira. Nem porque o pai da criança não vai aparecer, nem ocasionalmente. Estou sozinha nisto porque não posso falar. Sinto-me oprimida pelos olhos das outras mulheres, que claramente não entendem o que eu sinto. Sinto-me oprimida pelas vezes em que me dizem “deves estar tão feliz” ou “oh… que bom! Parabéns!”. Não é possível explicar a estas pessoas que estamos miseráveis. 

A minha família também não quer ouvir. Passaram pela fase da negação, pela fase das zangas, pela fase das palavras de apoio e agora estão radiantes com a ideia de ter um bebé por perto. Em mim, não muda: eu não quis este bebé… eu nem queria ser mãe. 

Dentro de mim cresce o impedimento da vida que eu tinha sonhado para mim. Dentro de mim, cresce um ser que terei de pôr em primeiro lugar e de criar quando sinto que devia estar, agora, a dar os primeiros passos numa vida a solo. Nunca vai haver vida a solo para mim. Nunca vou poder pôr-me a mim primeiro. Nunca vou poder agir de forma natural e despreocupada. Sou responsável por outra vida. 

Quando alego alguma destas ideias dizem-me que vai ser diferente quando o bebé nascer. Eu espero que sim… mas não acredito. Não consigo senti-lo dessa forma. 

Tudo o que sei é que, daqui em diante, a escolha que fiz é a que levo. Agarro-me à tristeza com sorrisos no rosto e desejo, embora as coisas que leio me digam que é improvável, que o bebé não sofra as consequências da minha depressão.

Acredito que posso ser uma boa mãe. Porque, ainda que não o deseje, acabei por escolhê-lo. Farei sempre por que não falte nada a este filho… já que a mim, agora, faltará quase tudo. Vou tentar criá-lo o melhor que souber. 

E, hoje, são sete pedras na mão que espero por escrever estas palavras. Estas onde digo que vou ter um filho indesejado. Que não estou feliz por estar grávida. Que tenho saudades da vida que sei que nunca vou ter. Só escrevo estas palavras porque ninguém as diz e não posso dizê-las a ninguém… mas não acho que sou a única.

E quero que outras pessoas na minha situação saibam que não estão sós. Porque esta é uma dor solitária e que ninguém entende. Apenas quem vive uma gravidez indesejada sabe o que é estar verdadeiramente “sozinha nisto”.

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