Grávida? Só de sonhos!

 Tenho sonhos. Muitos. Tantos que, por vezes, não cabem no peito e tenho de tentar agarrá-los com os braços e as mãos. Ainda sinto que me caem alguns ao chão, por caminho. Mas apenas porque nasci assim: grávida de sonhos; ávida por projetos; com uma vontade insaciável de beber a vida até à última gota, numa corrida constante. E, ainda que muitas vezes esta amálgama de sonhos tenha perturbado alguns, algo que depressa compreendi é que, de todos os sonhos, o mais incomodativo é justamente aquele que eu não tenho.

Pois é: eu não quero ser mãe.

Não querer ser mãe é algo que as pessoas não entendem e não aceitam. Algo que facilmente criticam. Algo que contrapõem, como se pudesse ser contraposto. 

As respostas que ouvi à mais simples das afirmações – “Eu não quero ser mãe.” – foram muitas e, por várias vezes, ofensivas. Além do clássico: “ainda mudas de ideias”; acrescentam-se os “não queres, se o teu companheiro não quiser”, o condescendente “uma mulher precisa de ser mãe para se completar” e o incrível “isso é por seres egoísta”.

Não querer ser mãe pode, claro, justificar-se de muitas formas. Poderia falar da instabilidade económica da minha profissão e dos preços obscenos das rendas ou dos custos associados a toda a educação de uma criança.

Poderia argumentar o estado da sociedade, onde cada vez mais meninos e meninas são levados aos patamares mais temíveis do Inferno com um bullying permanente.

Poderia apontar a informação que nos chega, atemorizante, nos telejornais e dizer que este não é mundo onde queira colocar um bebé. Tudo isto terá, creio eu, alguma verdade. Tudo isto iria, creio eu, amenizar um pouco a agressão das respostas que recebo. Mas tudo isto seria reduzir o que me faz dizer “eu não quero ser mãe”.

Admitirmos que não queremos ser mães simplesmente porque não queremos, porque não faz parte dos nossos projetos, porque preferimos outro estilo de vida parece ser ofensivo para os outros. As pessoas não entendem e não aceitem, nem parece que queiram entender e aceitar.

Balas de palavras e de desprezo seguem, por norma, esta minha afirmação. Conto pelos dedos as pessoas que a naturalizaram e aceitaram com respeito.

Na verdade, uma vez, chegaram-me a perguntar se eu odiava crianças, como se fosse natural assumir que, por não querer ter filhos, eu seja uma espécie de vilã de conto de fadas.

Eu não quero ser mãe. Isto não significa que não fique feliz quando nasce a filha de uma amiga nem que não passe horas a brincar com os meus sobrinhos. Isto não significa que sou contra a gravidez ou a maternidade. Isto não significa que eu não entenda a bênção que pode chegar com um filho. Simplesmente, eu não quero ser mãe.

Dizem que o número de pessoas com escolhas iguais à minha está a aumentar em Portugal. E talvez esteja. Preocupa-me o estigma que este número crescente de pessoas possa sentir pela sua decisão.

Preocupa-me o número de pessoas que pode ceder a um destino pelo qual não anseia pela pressão social. Preocupa-me que o mundo não saiba entender ou pelo menos aceitar que todas as escolhas são válidas.

Ando grávida. Mas só de sonhos. São tantos que às vezes, parece que nem consigo segurar todos. Não vou enumerá-los… mas um é este: um mundo onde as pessoas se aceitem, mesmo quando as opções de vida são diferentes.

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